Antena MEC
Momento Literário traz a poesia de Maria Lúcia Alvim
Maria Lucia Alvim: poeta de Minas que mostrou a terra em que nasceu e a vida e a morte nos versos de seus poemas

Uma poeta de Minas que mostrou a terra em que nasceu e a vida e a morte nos versos de poemas que trazem inquietações. São misturas de ficção e realidade. Falamos de Maria Lúcia Alvim, que nasceu em 24 de outubro de 1932, em Araxá, na região do Barreiro. Ainda bem jovem saiu de Minas para estudar no Rio de Janeiro, onde morou durante muitos anos. Publicou os livros de poesia XX Sonetos, Coração Incólume, Pose, Romanceiro de Dona Beja, A Rosa Malvada e reuniu a obra poética no livro Vivenda de 1989.
Como exemplo de sua poesia segue a leitura do poema do livro Pose de 1968 intitulado Tímida Confidência de um Poema.
Tímida confidência de um poema
Em tudo há um sentimento
vigilante
que procura vir à luz do dia –
raro nos é dado
saber quando
devemos acender-lhe a boca fria.
É por isso que vamos ficando
cada vez mais fechados –
covardia
ou surdo magnetismo
palpitando
entre o que fala e o que silencia.
Pose (1968)
Irmã dos poetas Maria Angela Alvim e Francisco Alvim, Maria Lúcia foi uma autodidata, não só nas letras, mas na pintura e colagem. Realizou duas exposições de artes plásticas e viveu também nas cidades mineiras de Volta Grande e Juiz de Fora, onde morreu no dia 3 de fevereiro de 2021, de covid-19, aos 88 anos, na casa terapêutica em que morava. Sua morte aconteceu pouco tempo depois da publicação do livro inédito Batendo Pasto, que ela havia guardado por quase 40 anos.
A obra foi redescoberta pelos poetas Guilherme Gontijo Flores e Ricardo Domeneck que a convenceram a lançar o livro. Os poemas estavam guardados com o poeta Paulo Henriques Britto que conheceu Maria Lúcia Alvim num evento de leituras de poemas no Rio nos anos 1980. Paulo Henriques conta que depois, numa volta de Minas ao Rio, ela o procurou e disse que tinha um livro prontinho, mas que só queria que fosse publicado depois da morte dela. Além disso, desejava que os originais ficassem com ele, mas Paulo Henriques Britto pediu que ela ficasse com uma cópia. E assim o livro ficou guardado até que num encontro de Britto com Domeneck em 2020, quando a própria Maria Lúcia Alvim estava, o poeta comentou sobre a existência do livro inédito. A partir daí, Ricardo Domeneck, com autorização da própria Maria Lúcia Alvim, tratou de trabalhar para lançar o livro, o que aconteceu em 2020. Pouco tempo depois, ela viria a morrer de covid-19.
O livro ganhou o Prêmio Jabuti de 2021 na categoria poesia e emocionou os que estavam presentes na cerimônia. Foi uma obra póstuma, um prêmio póstumo a uma poeta de muita presença na literatura poética contemporânea brasileira. É com o poema Cantiga de roda do livro Batendo Pasto, guardado por tantos anos, que terminamos o Momenteo Literário.
II. Cantiga de roda
Eu era assim no dia dos meus anos
E quando me casei, eu era assim
Eu era assim na roda dos enganos
E quando me apartei, eu era assim
Eu era assim caçula dos arcanos
E quando me sovei, eu era assim
Eu era assim na voz dos minuanos
E pela primavera, eu era assim
Enquanto fui viúva, eu era assim
Enquanto fui vadia, eu era assim
E pela cor furtiva, eu era assim
No amor que tu me deste, eu era assim
E trás da lua cheia, eu era assim
E quando fui caveira, eu era assim
Batendo Pasto (2021)
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