Antena MEC
Momento Literário lembra Castro Alves, o poeta social
Em 6 de julho, nos 150 anos da morte de Castro Alves, Katy Navarro fala da vida e da obra do poeta

Castro Alves, o poeta social, como é conhecido, nasceu na Vila de Curralinho, hoje Cidade de Castro Alves, na Bahia, em 14 de março de 1847.
Ainda criança, se mudou com a família para Salvador. Aos 13 anos recitou seu primeiro poema. Em 1862 a família se mudou mais uma vez, para Recife.
Ali, o jovem Castro Alves ingressou na Faculdade de Direito e passou a escrever poemas de luta por grandes causas da justiça, liberdade e contra a escravidão.
O poeta, que amava a vida cultural, conheceu em uma das apresentações de teatro na cidade a atriz portuguesa Eugênia Câmara, dez anos mais velha que ele e que seria fundamental no seu amadurecimento como escritor. A partir desse encontro começou uma fase de forte inspiração: escreveu o drama Gonzaga e se mudou para São Paulo
O tema do inconformismo em seus escritos ficou mais agudo e ele passou a pedir a abolição da escravatura em vários de seus poemas através de versos épicos como em Vozes d’África e Navio Negreiro, presentes na obra Os Escravos, que ficou inacabada.
Com a saúde abalada, ele voltou para a Bahia e passou o ano de 1870 em fazendas de parentes para tentar melhorar da tuberculose. Num desses locais, conseguiu completar o poema A cachoeira de Paulo Afonso, publicado em 1876, depois de sua morte.
O amor platônico pela cantora italiana Agnese Trinci Murri lhe rendeu a produção ainda de belos versos e ele conseguiu ver a publicação de seu primeiro e único livro em vida: Espumas Flutuantes.
Castro alves morreu aos 24 anos sem ter terminado seu maior projeto: Escravos, uma série de poesias em torno do tema da escravidão.
O poeta viveu pouco tempo, mas viveu intensamente e deixa em seus poemas seu romantismo, seu lirismo e seu assombro diante de um mundo onde escravos eram mercadoria nos mares. Seu poema Navio Negreiro, em seis partes, denuncia o sofrimento dos negros em um navio rumo ao Brasil.
Aqui, um trecho:
“Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar, por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?... Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!
Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? Se a estrela se cala, Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz, Perante a noite confusa... Dize-o tu, severa Musa, Musa libérrima, audaz!...
São os filhos do deserto, Onde a terra esposa a luz. Onde vive em campo aberto A tribo dos homens nus... São os guerreiros ousados Que com os tigres mosqueados Combatem na solidão. Ontem simples, fortes, bravos. Hoje míseros escravos, Sem luz, sem ar, sem razão. . .
São mulheres desgraçadas, Como Agar o foi também. Que sedentas, alquebradas, De longe... bem longe vêm... Trazendo com tíbios passos, Filhos e algemas nos braços”.
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