Rádio Sociedade
Criado por radialista com baixa visão, programa chega à 500ª edição como símbolo de acessibilidade e popularização da ciência
Em programa comemorativo, o radialista e idealizador do quadro, Marcus Aurélio de Carvalho, celebra as 500 edições da parceria entre o Observatório Nacional e a Rádio MEC

Foto: Observatório Nacional
Começamos hoje uma parceria que, tenho certeza, veio para ficar." Foi com essa afirmação que o radialista, jornalista e professor de comunicação Marcus Aurélio de Carvalho abriu a primeira transmissão do Ciência no Rádio, no dia 7 de outubro de 2015. A declaração não apenas se confirmou, como se transformou em uma das maiores experiências de comunicação pública e inclusiva da ciência no Brasil: na próxima quarta-feira, 28 de outubro, irá ao ar a 500ª edição dessa parceria entre o Observatório Nacional (ON/MCTI) e a Rádio MEC. O entrevistado será o próprio radialista.
A ideia do quadro Ciência no Rádio nasceu dois meses antes de sua estreia, movida pelo desejo pessoal do próprio Marcus de democratizar o conhecimento. "Sentia falta de um programa sobre ciências, para democratizar o saber científico. Como um tema que fascina muito é astronomia, veio a ideia de entrar em contato com o Observatório Nacional", relembra o radialista.
A paixão de Marcus Aurélio pelo céu vem da infância, quando olhava as estrelas do quintal de sua casa na comunidade da Fazendinha, no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro (RJ). Mesmo enxergando apenas 10% da visão no olho esquerdo e tendo perdido a visão do olho direito ainda garoto, o fascínio pela astronomia e pelo saber científico sempre o acompanhou. Ele conta que usava uma lupa como um "mini-telescópio" para contemplar o céu, sonhando em aproximar o encanto do universo das pessoas comuns.
Veiculado semanalmente às quartas-feiras, o quadro teve sua edição inaugural com a participação da pesquisadora do ON, a Dra. Daniela Lazzaro, que falou sobre os fenômenos astronômicos e sobre os temas do XX Ciclo de Cursos Especiais (CCE) em Astronomia do ON (a XXVIII edição está com as inscrições abertas).
O rádio como a "maior tela do mundo" e ferramenta de inclusão
Com mais de quatro décadas dedicadas ao jornalismo e ao rádio, tendo estreado em setembro de 1981, Marcus Aurélio construiu uma trajetória pioneira como o primeiro repórter esportivo de baixa visão em grandes emissoras. Atualmente, ele integra a gestão de comunicação da Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB) e da União Latino-americana de Cegos (ULAC), além de apresentar o programa diário Manhã VIP, na Rádio VIP FM de São Paulo.
Marcus ressalta que o rádio possui uma linguagem afetiva e altamente audiodescritiva, funcionando como a "maior tela do mundo". "O rádio amplia a imagem. Ele traz a tela do que acontece no espaço para o conhecimento de pessoas que não estão vendo a imagem, seja por serem cegas, com baixa visão, ou simplesmente por estarem ouvindo rádio", explicou.
Ao criar o Ciência no Rádio, o radialista se deparou com um desafio: incentivar os cientistas a trocarem o jargão acadêmico por uma comunicação simples e acolhedora. Para Marcus, usar a rádio pública para popularizar o conhecimento é um dever social e um antídoto contra o negacionismo: "Nós temos que ser o antídoto para muita gente que ainda fala sobre Terra plana e outras afirmações sem qualquer base científica. O Ciência no Rádio é uma aposta na ciência que deu certo”.
O radialista ressalta a capilaridade única da radiodifusão, que leva as pesquisas de uma instituição centenária para dentro das casas nos cantos mais remotos do Brasil. "O rádio é o único meio de comunicação que alcança qualquer lugar, uma comunidade ribeirinha, rural, chegando com custos baixíssimos. Falar de ciência no mais democrático dos meios é um gol de placa."
A edição de número 500 se soma a outros momentos marcantes do programa, como o especial de 10 anos, que contou com a presença da Dra. Josina do Nascimento, atual gestora da Divisão de Comunicação e Popularização da Ciência (DICOP), e da Dra. Alba Lívia Tallon Bozi, gestora da DICOP na época de criação do programa, em 2015.
A Dra. Josina, que assumiu a gestão da DICOP em 2020 e já participava do programa como entrevistada desde 2015, destaca o potencial inclusivo e a força da ferramenta: “Ao receber a gestão da DICOP das mãos da Alba eu recebi um presente. O Ciência no Rádio me encanta principalmente porque tem o viés de popularizarmos a ciência sem o uso de imagens e vídeos. Com ele, conseguimos a acessibilidade de chegar às pessoas cegas ou com dificuldade de visão”.
Atualmente assessora de comunicação do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA/MCTI), A Dra. Alba Lívia ressaltou a mudança cultural que o programa gerou dentro da próprio ON: “A construção do Ciência no Rádio e a necessidade de ter um assunto toda semana fez com que, dentro do próprio ON, os pesquisadores passassem a olhar para a divulgação de outra forma, reconhecendo que a divulgação faz parte da pesquisa”.
Diante do sucesso consolidado da semente que plantou em 2015 no programa Todas as Vozes, Marcus Aurélio define sua relação com a profissão como a de "amores correspondidos". "Sou um cara de amores correspondidos porque sou apaixonado por ser educador, pela gestão de pessoas, pelo rádio e pelo jornalismo. Ver um quadro que cumpre esses papéis se consolidar como um legado da comunicação pública da ciência é motivo de muita comemoração."
A ediçao comemorativa do Ciência no Rádio de número 500 vai ar nesta quarta-feira às 7h da manhã dentro do Rádio Sociedade da Rádio MEC. Não perca!
Dê sua opinião sobre a qualidade do conteúdo que você acessou.
Escolha sua manifestação em apenas um clique.